terça-feira, 17 de novembro de 2009

Sociedade dos poetas mortos

Não lemos nem escrevemos poesia porque é bonitinho. Lemos e escrevemos poesiaporque somos humanos (da raça humana). A raça humana está repleta de paixão. E medicina, advocacia, administração e engenharia são objetivos nobres e necessários para manter-se vivo. Mas a poesia, beleza, romance, amor é para isso que vivemos.

Citando Walt Whitman:

Oh! eu! Oh! Vida!

Entre as questões que reaparecem,

Os trens de desesperançosos, cidades cheias de tolos

O que há de bom entre eles, ó eu? Ó vida!

Resposta: Estar aqui.

A vida existe e a identidade

Essa brincadeira de poder continua

E você pode contribuir com um verso

Essa brincadeira de poder continua

E você pode contribuir com um verso


– Qual será o verso de vocês?

John Keating

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A música é para todos

O sinal toca e mais uma vez me preparo para a melodiosa aula de afinação(?) – não, de teoria musical. TEORIA... TEORIA... É engraçado escutar ruídos dissonantes nestes primeiros encontros. A afinação e a harmonia virão com o tempo, invariavelmente. Por enquanto vivemos em pausa, silêncio. Um som ou outro entrecortando a monotonia ansiosa na sala sóbria; mas são apenas barulhos, não há música ainda.

Um estranho me chama atenção. Estranhos me chamam atenção, talvez por eu ser um vasculhador de interessâncias novas, ou mais propriamente um carente de contato inédito. O fato é que o porte de maturescência adquirida recentemente sempre me chama atenção: é a concretização de um processo; é a vida ganhando forma semi-definitiva, o início de uma afinação.

Procuro melodias, ritmos, harmonia, música. Procuro vida em um mundo novo e extremamente belo. Vida em semi-breves – chega de semi-fusas! E por isso ser chamado (atenção) à tensão não é o que realmente procuro, é algo que se acha pelo caminho. É só isso.

domingo, 18 de outubro de 2009

Because we are your friends, you never be alone again


Ele não sabia se dormira, pois a ansiedade palpitava em seus olhos cansados. Tampouco sabia se estava acordado, pois o cheio amadeirado que fluía em seus sonhos durante a última semana invadiu-lhe o corpo despertando recôndidos desejos. Foi o despertar estridente do telefone que cortou o topor matutino e sublimou a sensação perfumada de aconchego.

A primeira inspiração vigorosa fez o sangue escorrer pelas veias e os músculos retesarem-se sob a pele quente. A volta à vida lembrou-o de que o companheiro de viagem chegaria a qualquer momento e da mochila que permanecia aberta à espera dos objetos lembrados na última hora para o festival.

Quarto, cozinha, banheiro, cozinha, quarto, quintal, cozinha novamente: hora do café, hora de sair. Partiram então num interlúdio de três horas. Perguntas vagas e palavras soltas iam de um para o outro, mas sempre estancavam na superficialidade de cada um. Mas ela chegou no ônibus que tomaram e puderam condensar aquelas conversas, liquefazendo risos e evaporando temores. Ao desembarcarem, foram para a casa alugada durante o inverno e esperaram os outros companheiros de república.

Para alguns era a primeira vez que se viam, para alguns era a primeira vez que existiam para o outro. Para todos era a oportunidade de se conhecerem. Conheceram-se elencando afinidade e descartando desafeições. Comiam ideias uns dos outros, bebiam e deliciavam-se com línguas nunca dantes roçadas, sequer experimentadas. Era um novo mundo de possibilidades que surgia a cada conversa, piada, estória, riso e imitação.

Ele provou o gosto do encontro com o desconhecido. Ele gostou de ver o Companheiro de viagem com ela, gostou de ver os companheiros de república escarafunchando-se mutuamente entre confissões e resoluções. E gostou ainda mais de ela ter-lhe possibilitado aconchego na noite realmente fria. Um Aconchego-de-Cabelos-encaracolando-se-de-Pulôver-Cinza-e-All-Star-sem-Cadarço, que lhe ofereceu seu casaco e seus braços de maioridade recém-conquistada.

Quando nos dias seguintes, o festival transcorria seguindo a programação, ele caminhava alternativamente, ora sozinho, ora em turma, com roupas novas ou puídas, admirando a paisagem e saboreando as pessoas. Às noites, a música invadia seu corpo e de seus amigos; dançavam, pulavam, beijavam-se, viviam... personagens eram criados, trejeitos e vocabulários copiados e as noites sempre seguiam, embriagando-lhes cada vez mais.

Ela às vezes não estava com o Companheiro de Viagem. Ela o queria, mas não da forma dele. Então, às vezes, o Companheiro de Viagem procurava nova companhia, até que encontrou um Companheiro Etílico.

Certa noite Ela cantava a plenos pulmões: “Because we are your friends, you never be alone again”; sua voz ecoava por sobre as batidas do eletro-house que compassava a pista, consolidando o companheirismo formado há poucos dias, mas de uma cumplicidade espantosa. Ele a escutava e formou coral com Ela, outras vozes juntaram-se e o eletro-house passou para o segundo plano, até extinguir-se e dar lugar a uma melodia da moda. Naquela mesma noite o garoto de cabelos encaracolando-se – aquele da outra noite fria - quis saber como seria estar beijando Ele e Ela. Ambos já provaram daqueles lábios, ao seu tempo cada um, mas não simultaneamente. A proposta causou relâmpagos de hesitação, trovejadas de curiosidade e uma garoa de sorrisos que culminou no ansiado beijo, um longo e demorado encontro.

Foi um beijo - um encontro entre Ela, Ele e uma terceira pessoa - numa noite fria de festival de inverno, mas não foi apenas isso, foi a materialização do sample entoado sobre as batidas do eletro-house: “porque nós somos amigos...

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

E agora, Maria?


Maria não sabia o que ocorria, mas já estava antevendo o “é que você é boa demais e não quero fazer você sofrer... blah... blah... blah...” – era sempre assim: entregava-se ao amor com toda delicadeza, coração palpitante de novas emoções e quando menos esperava, dava-se conta que tudo ruía novamente. Outro ciclo concluir-se-á em pouco tempo. E já é chegada a hora de dar mais uma vez adeus. Um aflito, angustiante e necessário adeus.

O que Maria não suportava nisto tudo não era o esmigalhar de uma relação recíproca – por mais que desejasse, (não) nunca houve reciprocidade! – nem ter de recomeçar mais uma vez. Não suportava a ideia de que (estivesse) estivera sozinha numa relação e era o que fatalmente acontecia, quando não estava mais sendo conquistada, quando a brincadeira-de-cativar-o-coração-de-mariazinha acabava. E a brincadeira sempre acabava quando era sua vez de jogar. Que sina!

A garota também se angustiava por, mais uma vez, perceber-se deslocada num mundo onde os brinquedos mais divertidos eram formados nas rasas relações de sentimentos frouxos e que, para ela, não tinham a menor graça. Por isso ela sabia que era exceção, ainda era exceção, e já não sentia necessidade de inclinar-se para espiar o amor cotidiano, sempre aquém de si. Sua índole não lhe permitiria. Entrar no jogo seria desvirtuar o que mais importava em sua vida: o amor. Para esta traição de si não havia disposição.

É só uma pausa, uma cauterização e um beijinho de quando-casar-sara para Maria continuar sua busca sem arrefecer. Afinal, suas disposições formam um manancial do qual brota os mais voláteis e rarefeitos traços de amor. E da mesma maneira que ela o cultiva em suas relações, necessariamente profundas, continuará buscando-o em sua forma mais pura. Basta passar o tempo da cicatrização, Maria voltará à ativa, e ainda uma vez se deixará entrar na brincadeira-de-cativar-o-coração-de-mariazinha, talvez tenha mais sorte.

É assim. Tem de ser assim. De outra forma não poderia usar a denominação “Eu aMaria”!

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Fritz Tegularius ou uma de minhas encarnações futuras

Tegularius era um caráter voluntarioso, caprichosos, sem vontade séria de se integrar, encantador, é verdade, pela vivacidade de sua mente nos momentos de inspiração; quando borbulhava sua graça de cunho pessimista ninguém podia subtrair-se ao atrevimento e por vezes à magnificência sombria de suas idéias. Mas no fundo era um incurável, porque não queria ser curado, não apreciava harmonia nem integração, nada amava a não ser a sua liberdade, seu eterno estado de estudante, e preferia ser a vida inteira sofredor, o imprevisível, o teimoso individualista, o louco genial e o niilista a trilhar o caminho da submissão à Hierarquia e alcançar a paz. Não fazia caso da paz, não dava nenhuma importância à Hierarquia, pouco se importava com repressões e o isolamento. Uma existência extremamente incômoda e intragável numa comunidade cujo ideal são a harmonia e a ordem. Mas justamente por essa dificuldade e esse desajuste ele era, no meio de um pequeno mundo tão esclarecido e ordenado, agitação constante e viva, uma censura, uma exortação e uma advertência, um estímulo a idéias novas, proibidas, ousadas, uma ovelha teimosa e travessa no rebanho. [...] De fato, ele era [...] um elemento que despertava, uma escotilha aberta para novos panoramas.
[...]
Era formidável e delicioso que existisse alguém assim

HESSE, Herman. O jogo da contas de vidro.
[trad. Lavinia Abranches Viotti, Flávio Vieira de Souza].
3. ed. Rio de Janeiro: Best Bolso, 2008. p.321-323.

Poucos espelhos são tão verossímeis quanto os escritos de Hesse.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Três parágrafos de escape e uma respirada

Sei que calado não pioro a situação, contudo as palavras depois de formuladas deixam de ser apenas abstrações, ganham existência concreta e tomam de conta da gente de forma que elas têm de sair ou nos sufocam. Sinto que escrever não será para mim válvula de escape das palavras não ditas por muito tempo. Um grito urra por ganhar forma em ouvidos outros e não sei se aguentarei ou se quererei contê-lo por muito tempo.


Ó saber que a sacudidela não destruirá? Será que alguém cuja ansiedade tanta encobre a existência tem condição de encarar a vida? Não sei. Não sei. Não sei... não sei nem se tenho coragem de tentar saber. É desesperador – não! corrijo-me, sempre espera-se o pior nesta situação – é angustiante saber de tudo isso e não saber o que fazer. É um não-querer-desejoso-de-esperança que nos agarra pela consciência e ata-nos. E nunca afrouxa. E amarra sempre mais. E sempre mais, mais, mais... sempre.


É amor demais, cobrança demais, expectativa demais, ansiedade demais, estresse demais, xingamentos demais... presença demais. É bem isto: vivo em um ambiente de excessos. Logo eu, tão afeito à simplicidade, melhor dizendo, à sobriedade. Talvez seja esta a causa de minha repulsa por tudo que passe dos limites.


A respiração soltou-se novamente. Mas até quando?

domingo, 2 de agosto de 2009

O que não se diz em meias verdades

Beatriz ainda sentia em sua face esquerda a quentura a mão materna mandando-a calar a boca. Foi um roçar acalorado entre a tez pálida e primaveril da garota e a força raivosa de fim de outono da mãe, gerada quando se deixa escapulir o controle da vida d’outrem. O fato deixou a garota ao mesmo tempo satisfeita e assustada, não por intencionalmente provocá-la ou desconhecer o peso da mão de sua mãe – ela conhecia muito bem – mas, por pensar que este tipo de atitude tinha sido deixado para trás, assim como sua infância fora reduzida a sutis lembranças.


O que fazer então? Não sabia lidar com meias verdades, nunca soube e por mais que tentasse se acostumar jamais conseguiria. O que são meias verdades? Um pouco de mentira? Um pouco de omissão? Um pouco de artifício? Um pouco de manipulação? – a verdade, ela sabe muito bem o que é! É quando se está de saco-cheio do cabelão e se vai ao banheiro, e se passa a tesoura, deixando-o todo repicado; e quando se pergunta o porquê disso tudo e se responde factualmente: "porque eu quis". - Para Beatriz, isso é verdade. Para sua mãe isso é desrespeito.


Beatriz estava cansada de se polir, estava cansada de se adequar, estava cansada de saber que seus problemas são infinitamente menores que as proporções analisadas pela mãe. Na verdade, não eram os problemas de Beatriz que assolavam o sono de sua mãe; era a liberdade que emanava do maneirismo da garota, era o olhar infantil que Beatriz lançava para o desconhecido, que a preocupavam.


Tudo isso empesteava a cabeça da garota com tamanha violência que ela nem se deu conta da pancada da porta de seu quarto que abafava o soluçar convulso da mãe aos prantos. Foi apenas ao mirar-se no espelho que ela pode perceber que meias verdades marcam mais que verdades inteiras, causam mais inquietações que o impacto de revelações tardias e que o peso descomunal de arrastá-las era uma simples escolha de cada um. Se a mãe quisesse permanecer atrelada à pseudoverdades, ela é livre para isso. Assim como Beatriz é livre para não fingir que nada aconteceu.