terça-feira, 17 de novembro de 2009

Sociedade dos poetas mortos

Não lemos nem escrevemos poesia porque é bonitinho. Lemos e escrevemos poesia porque somos humanos (da raça humana). A raça humana está repleta de paixão. E medicina, advocacia, administração e engenharia são objetivos nobres e necessários para manter-se vivo. Mas a poesia, beleza, romance, amor é para isso que vivemos.
Citando Walt Whitman:
Oh! eu! Oh! Vida!
Entre as questões que reaparecem,
Os trens de desesperançosos, cidades cheias de tolos
O que há de bom entre eles, ó eu? Ó vida!
Resposta: Estar aqui.
A vida existe e a identidade
Essa brincadeira de poder continua
E você pode contribuir com um verso
Essa brincadeira de poder continua
E você pode contribuir com um verso

– Qual será o verso de vocês?
John Keating

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A música é para todos

O sinal toca e mais uma vez me preparo para a melodiosa aula de afinação(?) – não, de teoria musical. TEORIA... TEORIA... É engraçado escutar ruídos dissonantes nestes primeiros encontros. A afinação e a harmonia virão com o tempo, invariavelmente. Por enquanto vivemos em pausa, silêncio. Um som ou outro entrecortando a monotonia ansiosa na sala sóbria; mas são apenas barulhos, não há música ainda.

Um estranho me chama atenção. Estranhos me chamam atenção, talvez por eu ser um vasculhador de interessâncias novas, ou mais propriamente um carente de contato inédito. O fato é que o porte de maturescência adquirida recentemente sempre me chama atenção: é a concretização de um processo; é a vida ganhando forma semi-definitiva, o início de uma afinação.

Procuro melodias, ritmos, harmonia, música. Procuro vida em um mundo novo e extremamente belo. Vida em semi-breves – chega de semi-fusas! E por isso ser chamado (atenção) à tensão não é o que realmente procuro, é algo que se acha pelo caminho. É só isso.

domingo, 18 de outubro de 2009

Because we are your friends, you never be alone again


Ele não sabia se dormira, pois a ansiedade palpitava em seus olhos cansados. Tampouco sabia se estava acordado, pois o cheio amadeirado que fluía em seus sonhos durante a última semana invadiu-lhe o corpo despertando recôndidos desejos. Foi o despertar estridente do telefone que cortou o topor matutino e sublimou a sensação perfumada de aconchego.

A primeira inspiração vigorosa fez o sangue escorrer pelas veias e os músculos retesarem-se sob a pele quente. A volta à vida lembrou-o de que o companheiro de viagem chegaria a qualquer momento e da mochila que permanecia aberta à espera dos objetos lembrados na última hora para o festival.

Quarto, cozinha, banheiro, cozinha, quarto, quintal, cozinha novamente: hora do café, hora de sair. Partiram então num interlúdio de três horas. Perguntas vagas e palavras soltas iam de um para o outro, mas sempre estancavam na superficialidade de cada um. Mas ela chegou no ônibus que tomaram e puderam condensar aquelas conversas, liquefazendo risos e evaporando temores. Ao desembarcarem, foram para a casa alugada durante o inverno e esperaram os outros companheiros de república.

Para alguns era a primeira vez que se viam, para alguns era a primeira vez que existiam para o outro. Para todos era a oportunidade de se conhecerem. Conheceram-se elencando afinidade e descartando desafeições. Comiam ideias uns dos outros, bebiam e deliciavam-se com línguas nunca dantes roçadas, sequer experimentadas. Era um novo mundo de possibilidades que surgia a cada conversa, piada, estória, riso e imitação.

Ele provou o gosto do encontro com o desconhecido. Ele gostou de ver o Companheiro de viagem com ela, gostou de ver os companheiros de república escarafunchando-se mutuamente entre confissões e resoluções. E gostou ainda mais de ela ter-lhe possibilitado aconchego na noite realmente fria. Um Aconchego-de-Cabelos-encaracolando-se-de-Pulôver-Cinza-e-All-Star-sem-Cadarço, que lhe ofereceu seu casaco e seus braços de maioridade recém-conquistada.

Quando nos dias seguintes, o festival transcorria seguindo a programação, ele caminhava alternativamente, ora sozinho, ora em turma, com roupas novas ou puídas, admirando a paisagem e saboreando as pessoas. Às noites, a música invadia seu corpo e de seus amigos; dançavam, pulavam, beijavam-se, viviam... personagens eram criados, trejeitos e vocabulários copiados e as noites sempre seguiam, embriagando-lhes cada vez mais.

Ela às vezes não estava com o Companheiro de Viagem. Ela o queria, mas não da forma dele. Então, às vezes, o Companheiro de Viagem procurava nova companhia, até que encontrou um Companheiro Etílico.

Certa noite Ela cantava a plenos pulmões: “Because we are your friends, you never be alone again”; sua voz ecoava por sobre as batidas do eletro-house que compassava a pista, consolidando o companheirismo formado há poucos dias, mas de uma cumplicidade espantosa. Ele a escutava e formou coral com Ela, outras vozes juntaram-se e o eletro-house passou para o segundo plano, até extinguir-se e dar lugar a uma melodia da moda. Naquela mesma noite o garoto de cabelos encaracolando-se – aquele da outra noite fria - quis saber como seria estar beijando Ele e Ela. Ambos já provaram daqueles lábios, ao seu tempo cada um, mas não simultaneamente. A proposta causou relâmpagos de hesitação, trovejadas de curiosidade e uma garoa de sorrisos que culminou no ansiado beijo, um longo e demorado encontro.

Foi um beijo - um encontro entre Ela, Ele e uma terceira pessoa - numa noite fria de festival de inverno, mas não foi apenas isso, foi a materialização do sample entoado sobre as batidas do eletro-house: “porque nós somos amigos...

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

E agora, Maria?


Maria não sabia o que ocorria, mas já estava antevendo o “é que você é boa demais e não quero fazer você sofrer... blah... blah... blah...” – era sempre assim: entregava-se ao amor com toda delicadeza, coração palpitante de novas emoções e quando menos esperava, dava-se conta que tudo ruía novamente. Outro ciclo concluir-se-á em pouco tempo. E já é chegada a hora de dar mais uma vez adeus. Um aflito, angustiante e necessário adeus.

O que Maria não suportava nisto tudo não era o esmigalhar de uma relação recíproca – por mais que desejasse, (não) nunca houve reciprocidade! – nem ter de recomeçar mais uma vez. Não suportava a ideia de que (estivesse) estivera sozinha numa relação e era o que fatalmente acontecia, quando não estava mais sendo conquistada, quando a brincadeira-de-cativar-o-coração-de-mariazinha acabava. E a brincadeira sempre acabava quando era sua vez de jogar. Que sina!

A garota também se angustiava por, mais uma vez, perceber-se deslocada num mundo onde os brinquedos mais divertidos eram formados nas rasas relações de sentimentos frouxos e que, para ela, não tinham a menor graça. Por isso ela sabia que era exceção, ainda era exceção, e já não sentia necessidade de inclinar-se para espiar o amor cotidiano, sempre aquém de si. Sua índole não lhe permitiria. Entrar no jogo seria desvirtuar o que mais importava em sua vida: o amor. Para esta traição de si não havia disposição.

É só uma pausa, uma cauterização e um beijinho de quando-casar-sara para Maria continuar sua busca sem arrefecer. Afinal, suas disposições formam um manancial do qual brota os mais voláteis e rarefeitos traços de amor. E da mesma maneira que ela o cultiva em suas relações, necessariamente profundas, continuará buscando-o em sua forma mais pura. Basta passar o tempo da cicatrização, Maria voltará à ativa, e ainda uma vez se deixará entrar na brincadeira-de-cativar-o-coração-de-mariazinha, talvez tenha mais sorte.

É assim. Tem de ser assim. De outra forma não poderia usar a denominação “Eu aMaria”!

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Fritz Tegularius ou uma de minhas encarnações futuras

Tegularius era um caráter voluntarioso, caprichosos, sem vontade séria de se integrar, encantador, é verdade, pela vivacidade de sua mente nos momentos de inspiração; quando borbulhava sua graça de cunho pessimista ninguém podia subtrair-se ao atrevimento e por vezes à magnificência sombria de suas idéias. Mas no fundo era um incurável, porque não queria ser curado, não apreciava harmonia nem integração, nada amava a não ser a sua liberdade, seu eterno estado de estudante, e preferia ser a vida inteira sofredor, o imprevisível, o teimoso individualista, o louco genial e o niilista a trilhar o caminho da submissão à Hierarquia e alcançar a paz. Não fazia caso da paz, não dava nenhuma importância à Hierarquia, pouco se importava com repressões e o isolamento. Uma existência extremamente incômoda e intragável numa comunidade cujo ideal são a harmonia e a ordem. Mas justamente por essa dificuldade e esse desajuste ele era, no meio de um pequeno mundo tão esclarecido e ordenado, agitação constante e viva, uma censura, uma exortação e uma advertência, um estímulo a idéias novas, proibidas, ousadas, uma ovelha teimosa e travessa no rebanho. [...] De fato, ele era [...] um elemento que despertava, uma escotilha aberta para novos panoramas.
[...]
Era formidável e delicioso que existisse alguém assim

HESSE, Herman. O jogo da contas de vidro.
[trad. Lavinia Abranches Viotti, Flávio Vieira de Souza].
3. ed. Rio de Janeiro: Best Bolso, 2008. p.321-323.

Poucos espelhos são tão verossímeis quanto os escritos de Hesse.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Três parágrafos de escape e uma respirada

Sei que calado não pioro a situação, contudo as palavras depois de formuladas deixam de ser apenas abstrações, ganham existência concreta e tomam de conta da gente de forma que elas têm de sair ou nos sufocam. Sinto que escrever não será para mim válvula de escape das palavras não ditas por muito tempo. Um grito urra por ganhar forma em ouvidos outros e não sei se aguentarei ou se quererei contê-lo por muito tempo.


Ó saber que a sacudidela não destruirá? Será que alguém cuja ansiedade tanta encobre a existência tem condição de encarar a vida? Não sei. Não sei. Não sei... não sei nem se tenho coragem de tentar saber. É desesperador – não! corrijo-me, sempre espera-se o pior nesta situação – é angustiante saber de tudo isso e não saber o que fazer. É um não-querer-desejoso-de-esperança que nos agarra pela consciência e ata-nos. E nunca afrouxa. E amarra sempre mais. E sempre mais, mais, mais... sempre.


É amor demais, cobrança demais, expectativa demais, ansiedade demais, estresse demais, xingamentos demais... presença demais. É bem isto: vivo em um ambiente de excessos. Logo eu, tão afeito à simplicidade, melhor dizendo, à sobriedade. Talvez seja esta a causa de minha repulsa por tudo que passe dos limites.


A respiração soltou-se novamente. Mas até quando?

domingo, 2 de agosto de 2009

O que não se diz em meias verdades

Beatriz ainda sentia em sua face esquerda a quentura a mão materna mandando-a calar a boca. Foi um roçar acalorado entre a tez pálida e primaveril da garota e a força raivosa de fim de outono da mãe, gerada quando se deixa escapulir o controle da vida d’outrem. O fato deixou a garota ao mesmo tempo satisfeita e assustada, não por intencionalmente provocá-la ou desconhecer o peso da mão de sua mãe – ela conhecia muito bem – mas, por pensar que este tipo de atitude tinha sido deixado para trás, assim como sua infância fora reduzida a sutis lembranças.


O que fazer então? Não sabia lidar com meias verdades, nunca soube e por mais que tentasse se acostumar jamais conseguiria. O que são meias verdades? Um pouco de mentira? Um pouco de omissão? Um pouco de artifício? Um pouco de manipulação? – a verdade, ela sabe muito bem o que é! É quando se está de saco-cheio do cabelão e se vai ao banheiro, e se passa a tesoura, deixando-o todo repicado; e quando se pergunta o porquê disso tudo e se responde factualmente: "porque eu quis". - Para Beatriz, isso é verdade. Para sua mãe isso é desrespeito.


Beatriz estava cansada de se polir, estava cansada de se adequar, estava cansada de saber que seus problemas são infinitamente menores que as proporções analisadas pela mãe. Na verdade, não eram os problemas de Beatriz que assolavam o sono de sua mãe; era a liberdade que emanava do maneirismo da garota, era o olhar infantil que Beatriz lançava para o desconhecido, que a preocupavam.


Tudo isso empesteava a cabeça da garota com tamanha violência que ela nem se deu conta da pancada da porta de seu quarto que abafava o soluçar convulso da mãe aos prantos. Foi apenas ao mirar-se no espelho que ela pode perceber que meias verdades marcam mais que verdades inteiras, causam mais inquietações que o impacto de revelações tardias e que o peso descomunal de arrastá-las era uma simples escolha de cada um. Se a mãe quisesse permanecer atrelada à pseudoverdades, ela é livre para isso. Assim como Beatriz é livre para não fingir que nada aconteceu.

Vacilante

In truitina mentis dubia fluctuant contraria lascivus amor et pudicitia. Sed eligo quod video, collum iugo prebeo: ad iugum tamen suave transeo.

Carmina Burana, apud SCHEMELLER, 1847


“No balanço de minha mente dúbia flutuam contrários, o amor lascivo e o pudor. Mas escolho o que vejo, e ofereço meu pescoço ao jugo, afinal, ao jugo suave atravesso.”

Canções de (Benedikt)beuern, apud SCHEMELLER, 1847

terça-feira, 21 de julho de 2009

Sem pressa

Era mais uma festa, quer dizer, era a primeira festa daquelas que ele iria; mas não estava ansioso, estava contente. Fora surpreendido na última semana com diversas propostas de pessoas quaisquer, e ainda estava assimilando eventos anteriores. Estava sutilmente diferente, contudo ainda era o mesmo: perdera apenas a pressa. O rio agora corria mansamente e ele permanecia calmo. Permaneceria adulto, puerilmente maduro e des-esperando acontecimentos programados.


Lábios encostavam-se, risos fugiam de conversas etílicas, e ele, com sóbrios olhos infantis engastados numa recente maturescência, assistia às faces andróginas que se mesclavam e ofegavam testosterona entre suspiros. Há certo momento, também ele quis participar do festim (algo se apressara dentro de seu ser) e virilmente agarrou bocas... virilmente sua boca foi agarrada... placidamente estampava-se um sorriso orgulhoso em seu rosto.


Então se deixou surpreender, pela primeira vez desapressadamente, em cenas próprias.


Um olhar fugaz chamou-lhe a atenção; quando este encontrou seu olhar (também fugaz), ambos miraram-se e tornaram-se límpidos. Assim, a cada espiadela, sorrisos convidativos foram se formando e uma alegria foi tomando de conta dos três metros que retardavam o encontro. Vencida a distância, uma apresentação pessoal formalizou o contato. Não havia pressa. O desejo palpitava naqueles olhares e bocas cadenciadamente próximos e finalmente juntos numa fragrante e amadeirada sintonia.


Sem pressa, vigorosos beijos foram se elaborando entre os lábios. Sem pressa, suaves carícias iniciaram a experimentação daqueles corpos. Sem pressa, uma descontraída conversa foi sendo construída e quando perceberam já estavam irremediavelmente envolvidos.


O tempo não passava, mas não havia pressa. Ele já não precisava acelerar as coisas, encaminhar-se-iam naturalmente, fluidamente, nas correntes do rio que já não prendia seu olhar àquele, mas os tornavam livres e desejosamente à procura um do outro.


Ele se deixou experimentar a liberdade em companhia... sem pressa; e descobriu que não há paradoxo em ser livre e estar acompanhado. Alguma coisa lhe pergunta: “seria o amor?”, mas ele não tem pressa... ele tem a resposta.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Prêmio Dardos



O prêmio possui três regras:
1 - Aceitar exibir a imagem
2 - Linkar o blog do qual recebeu o prêmio
3 - Escolher 15 blogs para entregar o prêmio dardos

Uma breve descrição:
"Com o Prêmio Dardos se reconhece o trabalho que o blogueiro mostra em seu empenho por transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais etc., que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras"

Agradecendo a quem me deu, pela minha admiração, pela minha inspiração, pelo amor compartilhado; e claro! pela escrita maravilhosa:

[Denise Mascarenha, o meu carinho improvisado em palavras]


Agora por onde passo, para buscar inspiração e colher sensções: Eu, a Maria; Estudando Psicologia; ...Bem na Muringa; Alternativo é Eufemismo; Uma mente pulsante; Nessa tela cinza; The Scientist; E agora,Maria?; Caçadora de Mim; Um mundo novo aos corações corajosos; Intelectualismo vulgar; Uma dose de sonho e dois dedos de esperança...

Boas leituras

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Fugaz

O garoto não sabia como ou quando aquele gancho tinha lhe entrado no nariz. Mas até que estava gostando de sensação de dormência que ele causava em toda a sua face. Era um metal frio e mesmo com todos aqueles espirros e fungadas nunca esquentava. Achava ele que tudo era psicológico. Mas como seria isto, se ele podia sentir a ponta arredondada no meio da narina esquerda?

Vez por outra dava-lhe uma coceirinha no septo que ele não sabia ao certo se gostava ou detestava. Sentia a ponta aguda fincada no osso e receava sentir dor caso mexesse muito no já tenro ganchinho.

Seria possível que infeccionasse? Sim. É um corpo estranho em meu corpo. E se infeccionasse e eu perdesse o nariz? Não! Não vou nem pensar nisso... – ele quase se desesperava e levava os pensamentos à outra direção.

Agora vagueava pela ansiedade de um primeiro encontro. Não sabia ao certo se tinha marcado com a garota para a sessão das duas ou das quatro e quarenta. Também não ligaria para perguntar; afinal! que interesse é esse que não o faz lembrar se iram namorar um pouquinho e assistir ao filme ou assistir ao filme e namorar um pouquinho? Bem, no fundo não importa muito a ordem, ele sabia exatamente que namorariam o tempo todo, quer no cinema quer na praça de alimentação e estava feliz por isso.

E se quando estivesse se beijando ela notasse o artefato bem no meio do nariz? Ela não notaria. Só... se fosse... uns beijos daqueles... – ele sabia que os beijos seriam daqueles; ela mexia muito com ele. – Pronto! o encontro vai ser uma porcaria, uma grande piada: a garota mais gata do colégio e um... um... metaleiro com um ferro enfiado no nariz!

É isso! uma áurea de razão circundou aquela mente prenhe de sensações frias – É um piercing! Ela mesmo tem um brinco transverso na orelha direita; o que para qualquer um é um piercing – ele já estava até vendo aonde as conversas levariam eles e como faria para deter alguma delas em coisas que tinham em comum.

O metal esfriou um pouco mais e uma coceira avermelhou a ponta do nariz. Os olhos do garoto preparam-se para o espirro, mas ele não veio. Outra vez tomou fôlego, mas a coceira, agora insuportável, dispersou o ímpeto da expiração em esbravejos e palavras de mau-gosto. O garoto lavou as narinas com água; apenas o cloro queimando-lhe as mucosas. Tentou soro fisiológico; o ouvido destampou (!?!) – foi surpreendente saber que o ouvido estivera obstruído – e o espirro nada!

Resolveu deixar como estava. Agora é assim: se não dá pra mexer é que mexido já está.

[...]

O alarme do telefone toca. Uma e vinte. A sessão é das duas – lembrou – a pressa guiou-o ao banheiro, enquanto a promissora tarde de sábado preparava-lhe mais uma fugaz normalidade.

domingo, 10 de maio de 2009

Quando o narrador se vê personagem

Ele chegou, avistou ao largo da praça à procura de uma satisfação para o olhar, que veio apenas com a rala chuva que adensava ainda mais aquela manhã escura. Palpitavam-se ansiosamente os segundo perscrustados antes da chegada dela. Ele estava tão concentrado na espera, que nem se deu conta dos passos apressados da garota e estancados à distância de um abraço furtivo.

Foi um golpe suavemente aplicado em meio a mais-uma-olhada-no-relógio e a coçadinha-na-nuca já típicas do rapaz, de forma que os lábios dela dividiram o arrepiante beijo entre o pescoço e o dedinho dele. Resultando tudo num sorriso excitado com um quê de susto, quê de medo, de alívio, felicidade... Ele ainda permaneceu imóvel para que a garota traspassasse seu braço direito pelo peito robusto, pousando-lhe a mão no ombro intumescido do possível nadador; e o esquerdo à volta da cintura do rapaz para esconder sua mão sob a camisa dele, como quem faz do umbigo um ninho aconchegante para o polegar gelado.

O ar frio ofegava satisfação naquele cumprimento meio acovardado e profundamente desejável e era preenchido pelo chuvisco que umedecia o caderno dele que repousava no banco e fora rapidamente afastado após um demorado beijo de bom dia para que desse lugar a ela e em seguida a ele. Há este meio-tempo vários guarda-chuvas já perambulavam pela praça e eles permaneciam imunes do cotidiano, enamorados e com os uniformes cheios de respingos na tênue sombra da árvore que os abrigava.

Tratavam certamente de amenidade, acontecimentos sorridentes, sob a chuva, a árvore, a fuga do colégio... sob meu olhar curioso e contagiado de tanta ternura. Então um sentimento antigo me invadiu: era uma nostalgia infinda, a saudade infinita de um futuro promissor que me acalentava na calçada contígua à praça, protegido pelo guarda-chuva sóbrio da gélida chuva que fazia os namorados aninharem-se no calor mútuo.

Sorriamos todos na confortável brisa de amor.

Denise Mascarenha, pela a Vida

Quando te criei eu sinceramente não sabia teu potencial. Não sabia o quanto seria fácil e complicado rumar teus passos para além de tua própria vida. Era um risco colocar tamanha responsabilidade em ombros tão tênues, na época. Hoje vejo que o risco não era meu, apenas tu poderias vagar pelas artimanhas de teus parecidos, não iguais.

Quando elaborei tuas dores, pensei sinceramente que não agüentaria o fardo. Outro engano. Dei-te a fibra que falta em muitos e sobra em poucos: tens o tanto exato.

Sei da sede que te imponho e do ódio que momentaneamente me tens. Sei também que és capaz de apreender-me no mais sutil dos olhares, nas mais tímidas confissões e no mais eloqüente dos silêncios.

Sei, e tu sabes que eu sei que tu sabes (até o que pensas que nem sabes) que eu vejo teus passos delicados através da doçura incerta de tuas palavras, eles me capturam (também a mim, olha só!) e me levam consigo até a próxima conversa substanciosa de interessâncias indefiníveis. Nesta estação, uma pausa para um café; um minuto para mais um sorriso mútuo, e o riso atravessa a vastidão do aposento denso, cortando leve a noite recém-chegada.

Respiras a vida, e eu a ti.

sábado, 18 de abril de 2009

sábado, 21 de março de 2009

Ao Héllio Linhares, que esteve tão “perto do coração selvagem”

“E de repente as coisas haviam endurecido, uma orquestra rebentara em sons tortos e silenciara imediatamente, havia alguma surpresa triunfante e trágica no ar. Eu descobri que no fundo não havia em mim surpresa; que tudo caminhava lentamente para aquilo e agora se precipitara no seu verdadeiro plano. [...] Ninguém precisava mais mentir, uma vez que eu já sabia tudo! Também agora me precipitarei em outro estado. Por quê? Por quê? Vou embora daqui, vou para casa, de um instante para o outro o rasgão no vestido, ouvir o grito lancinante da orquestra e subitamente o silêncio, todos os músicos caídos mortos sobre o estrado, no grande salão zangado e vazio. Olhar de frente para o rasgão, mas sempre tive medo de rebentar de sofrimento, como o grito da orquestra. Ninguém sabe até que ponto posso chegar quase em triunfo como se fosse uma criação: uma sensação de poder extra-humano conseguida em certo grau de sofrimento. Porém um minuto mais e a gente não sabe se é de poder ou de absoluta impotência, assim como querer com o corpo e o cérebro movimentar um dedo e simplesmente não consegui-lo. Não é simplesmente não consegui-lo: mas toda as coisas rindo e chorando ao mesmo tempo. Não, seguramente não inventei esta situação, e é isso o que mais me surpreende. Porque minha vontade de experiência não chegaria a provocar esse ferro frio encostado na carne morna, finalmente morna da ternura de ontem. Oh, não se fazer de mártir: você sabe que não continuaria no mesmo estado por muito tempo: de novo abriria e fecharia círculos de vida, jogando-os de lado, murchos... [...] Sobretudo não houve transformação essencial, tudo isso já existia, houve apenas o rasgão do vestido indicando as coisas. E realmente, realmente, realmente, dor de cabeça, cansaço, realmente tudo caminhava para isso.”
Clarice Lispector

domingo, 8 de março de 2009

Em plena tormenta, a bonança

“Você vai entender se eu disser que tenho medo e que preciso ir devagar?” Essa foi a tentativa de resposta após a noite de resoluções em claro. Ele realmente não esperara aquela proposta.
Sua consciência ainda agastada ora pelo cansaço, ora pela decepção, demorara mais que o costume para processar todas as informações das últimas quinze horas e conseguiu apenas uma breve procrastinação para a realidade emergente, quedando-se por mais quinze horas e o sono reparador indicou-lhe o caminho.

Todavia estava ele ainda empacado em tentativas. E tentará não se abater com as revelações recentes de acontecimentos pretéritos: isto é assunto de 2008 e permanecerá enterrado com o ano passado. As consequências permanecem, transformar-se-ão fatalmente com o passar dos dias, mas ainda permanecem...

Tentará mais uma vez. Temendo, mas tentará com todas as forças de seu coraçãozinho resoluto em seguir em frente.

...

“Ei! Olha pra mim” pede ele docemente, é atendido e se segue a interrogação.
“Porque teu olhar é bonito e ultimamente necessito ver coisas belas” ele responde objetivamente e nota o olhar singelo sob uma testa curiosa.
“É bonito sim. É um olhar que de repente se mostra...” ele esclarece e o olhar pisca e foge num relance.
“Não... não é tristeza que teu olhar mostra. É complicado explicar. Mas é quase um convite...”
Sorriem.

Ele começa então a imaginar que é possível a bonança vir em plena tempestade, pois é nesta tormenta de traições que se planta amor e chegam notícias da colheita de curas.
Ele traz um sorriso ainda cauteloso, mas acima de tudo agradecido pela vida.

domingo, 1 de março de 2009

Alegoria de vidro em pó

Ultimamente algumas conversas esclarecedoras têm me feito ter algumas idéias. A alegoria que se segue é resultado de uma delas, ocorrida durante certa madrugada em meu quarto, há semana antes do carnaval.

Era apenas uma lâmpada qualquer que estourou após uma carga de maior intensidade. Desesperado, ainda tentei juntar os pedaços com cola... quanta ingenuidade!... Percebi isso logo após ser avidamente cortado.
Talvez por acalentar futuras esperanças... sabe que eu já me apegara àquela lampadazinha qualquer!... os cacos que restaram em guardei em uma caixa escura, assim eu teria a desculpa de não me lembrar o quanto aquela lâmpada me ofuscara durante certo tempo.

Mas mexeram em minha caixa. Sacudiram-na e a atiraram ao chão.

Porque não conseguiria esquecê-la mesmo!... Apanhei-a e a coloquei sobre a cômoda, ao lado do pote de cola; e só por curiosidade abri a tampa para ver como estavam os cacos: menores e em maior quantidade.
Como havia anda certo espaço dentro da caixa, guardei o pote de cola que eu usei na tentativa de unir o vidro logo após o estouro.

Quando tudo estava calmo e nova luz já brilhava em meu quarto, surgiu a necessidade de uma comemoração. O que fazer? Qual o motivo para uma festa? Sei lá... que tal a lâmpada nova do Joaquim?!!
Então já tinha o lugar e o motivo, os víveres seriam as sobras da festa passada; faltavam as pessoas. Poucas foram chamadas, mas outros apareceram.

No início da tertúlia saí para buscar gelo e distraí-me com os ímãs da geladeira que fixavam meus lembretes:

“Cobre a armação com a seda vermelho-sangue.O vento tá chegando e as outras pipas já estão no céu.”
“Guarda a porra daquela caixa, porque se ela se espatifar de novo no chão, os cacos vão virar pó.”


Foi quando notei que a música tinha parado e os convivas e os outros estavam calados... a caixa! (era um pensamento instantâneo e automático).

Ao abrir a porta, percebi a escuridão do quarto e na penumbra mesmo avistei o pó de vidro espalhado pelo chão, sendo lentamente incorporado à cola que escorria do pote.

(pausa dramática para os pensamentos de um piscar de olhos)
“Eu sabia que deveria ter guardado numa gaveta aquela tralha toda!”
“Por que diabos que esta luz tá apagada? Será que a lâmpada estourou de novo?”
“Cola + pó de vidro + pipa = cerol”


(resoluções sobre pensamentos de um piscar de olhos)
“Posso bem usar esta merda toda que se formou: é só colocar um pouquinho mais de cola e passar na linha, assim nenhuma linha vai tirar minha pipa vermelho-sangue do céu! Além do mais, posso cortar qualquer uma que se aproximar demais”

Então o que eu fiz: acendi a luz; mirei os outros e os convidei a chegarem mais cedo em suas casas. Com ajuda dos poucos que convidei, juntei cuidadosamente a bagunça com um pano úmido e coloquei na mesma caixa. Sai acompanhado por eles, que nem se surpreenderam quando joguei tudo no lixo. Apenas os poucos que convidei sabiam que não valeria à pena cortar os dedos para manter afastadas as outras pipas, assim como não valerá à pena guardar os cacos das futuras lâmpadas quaisquer.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Monólogo sobre meu amor infinitivo

O que sentes? Descreve teus sentimentos.
Claro que sabes. Sabes exatamente o que sentes. Não te fujas!
...

Hum!
“Chateado...” – sê mais exato. És possível.
“Estranho...” – realmente, tu já não te contatas. Ainda te reconheces?
Sabes exatamente teu poder nas palavras. O que te impedes, então?
...

“Medo.” – agora sim. Continua nomeando-te para que te possas substantivar, subjetivar-te. Não te caracterizes. Apenas seja!
“ É porquê?!!!” – não te justifiques. Interessa-te realmente a justeza de tua causa? Não eras então os teus sentimentos...
Sabes exatamente teu poder nas palavras. O que te interessas, então?
...

Ah! bem, agora fala-te de amor.
O que tens?
“É que achas... pensas... sabes...” – fá-te um favor: cala-te! E não te transforma numa profecia!
Sabes exatamente teu poder nas palavras. O que te queres, então?
Se assim fizeres, lançar-te-ás no labor eterno de fugir ou entregar-te em tuas palavras. Pondera. Retoma então ao teu tema: teu amor.
Já sabes até qual lição tu terás!

Tu já amaras, pois te compartilhaste ainda em época pretérita.
Época em que nem sabias se tu amarias.
Amastes quando te apaixonaste,
Quando te indagavas: realmente amarás?
Hoje amas, bem sabes.
Porém, deves recomendar-te imperativamente: ama!
Continua amando,
Sendo ou não amado,
Pois és indicativo do amor que tens
E fugirás da maneira subjuntiva, logo neurótica
De amar.

E só para arrematar-te: quando falares, quando pensares... enfim, quando te inquietares: recorre a outrem. Não te prendas a ti mesmo, pois é no encontro com uma terceira pessoa que deixarás de apenas falar-te contigo, para ser a primeira pessoa em teu próprio discurso!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Olhos ilegais in summertime

Deitado na rede eu observava os olhos que me viam à distância. Olhos meigos, olhos doces, mas no fundo, olhos tristes. Não de uma tristeza momentânea, de um hesitar desde sempre e nem sempre conseguir.

Olhos amáveis por instantes miravam-me e eram contraídos pelo riso solto que na tarde amena de verão ecoava.

Não era o olhar desconstrangido, tampouco sem-vergonha que me enxergava... era o olhar de quem dá os primeiros passos no lance de uma escadaria escura: seguindo com cautela, esperando o próximo degrau e temendo o desequilíbrio, a queda...

Sabe, que eu gostei... melhor! Amei o que vi:

Um olhar que não apenas olha. Um olhar que de repente se mostra. Porém um olhar que não repara na própria interessância!

Advice in summertime:

Mira-te! Olha-te! Vê-te! Repara-te! Enxerga-te!

Assim tu podes ser mirado olhado, reparado, enxergado por estes olhos ilegais.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Sabá

Sabá deixou seus filhotes no canto da cozinha e foi à vasilha d’água. Parou um instante. Farejou algo que jamais saberia – foi o que eu pensei naquele instante – porque seus olhos amarelos voltaram-se apenas para seu reflexo. Ela acariciou a lâmina d’água com a rosada língua. Vez por outra volvia as orelhas no sentido d’algum barulho alhures. Vez por outra voltava a face para mim e mirava-me a alma.

Ela sempre debochava do que em mim via, lambendo amiúde o acetinado breu que lhe envolvia a pálida epiderme. E eu recolhia-me em minhas interrogações.

Os filhotes ainda queriam mamar e rumaram à mãe enquanto ela ainda bebia. Sabá carinhosamente lambeu suas crias e as deixou ao lado da vasilha seca. Como de costume, os gatinhos não espernearam e distraíram-se mordiscando uns aos outros. Ela observava placidamente sobre a cadeira que repousa quando está de saco cheio dos filhos.

Mais uma farejada... Mais uma curiosidade minha demonstrada apenas pelo meu olhar que seguia seus passos e me fazia perder mais uma vez a página da leitura.

A gata pulou da cadeira e caminhou mansamente em minha direção. Roçou o rabo nos pêlos de minha perna ronronando e arremedou um miado.
– O que foi gata? Hum? Por que me olhas?
Ela pulou em meu colo e quase me fez derrubar o livro.
– Nã, minha filha! Desse jeito não – ela começava a afiar suas unhas na braguilha da minha bermuda.
– Vá atrás de outro. Procure um gato – ela sorriu(?!?!)
– É muito vadia mesmo! Tás com fome? Hum? – ela pulou para o parapeito da janela.

Uma última farejada; um estrondo na tarde morna: estávamos mais uma vez contemplando a chuva. Éramos apenas nós em silêncio e o tempo nenhures.